sexta-feira, março 11, 2011

Devassa para menores

Bom, já tá na hora de sacudir isso aqui, né? Vida nova, fim de resguardo, terremoto no Japão e bola pra frente, pro alto, pra cima e subindo.

Finalmente me rendi á curiosidade e fui procurar no Youtube a propaganda da cerveja DEVASSA com a Sandy. Na TV acho que nem teria chance de ver uma coisa dessas: em casa não tenho tempo, e aqui onde tô passando as "férias médicas" (é um nome melhor que "resguardo", né não?), prefiro TV a cabo.

Coitada da Sandy... é verdade que "fiz as pazes" com ela depois do lançamento do CD "Manuscrito". Não li as críticas, não sei como o público recebeu, e tenho certeeeeeeza que meus amigos metaleiros vão me execrar por admitir publicamente que eu gostei, mas no MEU aparelho de som toca o que EU quero, e é pra isso que servem os fones de ouvido.

Agora, Sandy e Devassa... não deu certo não. Tenho certeza que os publicitários que tiveram essa idéia genial também não imaginavam que daria tão errado. E, se bobear, nem a Sandy devia ter imaginado que a campanha ficaria tão ridícula. Não dá para culpá-la por não ser vulgar - aliás, isso é mais ridículo ainda- Mas a verdade é que, "propagandamente", o tiro saiu pela culatra. Sandy bebendo cerveja numa campanha de 1 milhão, só prova uma coisa (ou duas) : ela pode ser péssima atriz, mas a verdadeira virtude é incorruptível.

Agora, sim: eu acredito que ela seja uma boa moça. Com um lado "descolado", sim - e foi aí que ela foi parar nesse comercial - mas uma boa moça de verdade. Engraçado até o jeito dela no comercial: mesmo fazendo seu melhor, não consegue disfarçar a falta de jeito.

Fico feliz ao ver que pelo menos uma celebridade ainda tem vergonha de ser vadia - mesmo de mentirinha.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Aborto Espontâneo : minha experiência

Durante estes dias difíceis, entre descobrir que minha gravidez de 11 semanas já não mais evoluía e hoje - que fiz a última US pós-curetagem, constatando que está tudo bem e logo poderei ter uma nova gestação- minha maior fonte de informação foram os depoimentos online de mulheres de várias partes do mundo, idades, credos e raças, que passaram por uma -ou algumas- situações semelhantes. De igual mesmo, acredito, apenas a dor.

Mas se a Internet não pode ser fonte segura do que vai ou não acontecer, do que pode ou não ser e como - devemos SEMPRE consultar um médico pessoalmente a respeito de nossa saúde - realmente uma coisa pude confirmar: de que cada caso é um caso. Ler tantas e tão diversas experiências foi bom para mim. Na mais simples das análises, fez com que me sentisse menos sozinha. Por isso, decidi contar também um pouco da minha experiência. A parte física, que mais provoca medo e dúvidas. Seria impossível tentar descrever o que se passa no coração e mente de uma mulher num momento como aquele.



Foi Deus que me mandou para o hospital naquela noite. Não era uma consulta de rotina, na verdade fui parar lá quase por acaso, por uma gota de sangue na calcinha que descobri mais tarde ter saído de um pequeno ferimento externo. Na minha primeira gravidez, sim, tive sangramentos e perdas de líquido significativas, passei por dificuldades no prmeiro trimestre, mas eram outros tempos, eu vivia uma época de stress e abusos: bebia, fumava, não cuidava da alimentação, na verdade, pesava pouco mais de 30 kg (tenho 1,43m) e quase não dormia. Portanto, não me alarmei quando o GO de plantão me deu a guia para o US com os dizeres "ameaça de aborto". Não era a primeira vez que recebia aquilo. E olhei confiante para minha linda e saudável filha de quase 4 anos.

Minha confiança só desmoronou ao ver a ruga de preocupação do médico que fez o US. Não conseguia acreditar no que eu ouvia - no que eu NÂO ouvia. Os batimentos cardíacos do feto haviam cessado. Não havia movimentos.

Nos dias seguintes, rezei por um milagre que não veio. A segunda US confirmou minha tristeza. Choveu muito lá fora e dentro de mim.

A GO então apresentou-me as opções: eu poderia esperar - um máximo de 15 dias - pela expulsão natural dos produtos da gestação ou internar-me imediatamente para a indução e possívelmente uma curetagem. Dra. Evelyn foi maravilhosa em todos os sentidos com sua informação e sensibilidade.

Explicou-me que eu poderia ir tranquilamente para casa e aguardar, se quisesse, para que a sábia Natureza trouxesse a solução, visto que o diagnóstico do óbito havia sido quase imediato. Mas que eu deveria ir direto ao hospital assim que começasse a sangrar, para ter um acompanhamento.

Meu marido estava muito nervoso. Ele é um homem prático que muitas vezes me trouxe equilíbrio, mas naquele instante eu me dei o direito de discordar. Por decisão dele eu ficaria internada desde aquele momento, sob cuidados médicos, especializados. Acabaria de uma vez com aquele sofrimento e minimizaria os riscos. Ele me ama, quer ter outro filho. Sob sua visão, era muita coisa para arriscar.Eu compreendia isso. Mas o que ele nem ninguém poderia compreender era minha luta contra a simples idéia de "aborto". A enxurrada de pensamentos, de lembranças que me vieram, a luta física e psicológica pela minha primeira gravidez... Cada um sabe o que viveu. E eu sei o que vivi até ali para que a menção a "Cytotec" e "Misoprostrol" me desse ânsia de vômito. Quantas - e foram muitas!- que eu conheci usavam essas palavras como sinônimo de alívio, de bénção, de condescendência...Creiam-me, invisíveis leitores: conheci ALGUMAS barrigas que se foram num passe da "palavra mágica" . Cytotec me parecia o nome do próprio diabo. Não, eu SOFRI um aborto! SOFRI!! Mas na minha cabeça ecoavam vozes conhecidas: "É só usar Cytotec, não 'pega' nada..!"


Perdão se estou confundindo alguém com histórias mal contadas... Talvez isso não venha mesmo ao caso.

De volta a Dra. Evelyn...Ela me explicou que, uma vez internada, se não houvesse sangramento, primeiro seria feita a indução, com o tal Cytotec. Disse que eu sentiria cólicas muito fortes, sim, mas que a idéia era essa: expelir. Foi sincera também, dizendo que provavelmente teria de passar por uma curetagem, dado o tempo de gestação (11 semanas), mas que não me preocupasse, era um procedimento simples, feito sob anestesia geral (sedação), e que eu sequer lembraria de nada. Explicou inclusive a importância desse procedimento: limpar totalmente o útero, para evitar infecção- o que seria mil vezes pior.


-E AMIU? - perguntei, já orientada por uma amiga médica.

AMIU é um outro tipo de procedimento para retirada dos produtos de uma gestação que não evoluiu. É uma aspiração desses produtos aravés de uma cânula, como uma seringa. É um processo mais simples, menos arriscado e menos invasivo. Muito usado na rede de atendimento pública, mas praticamente inexistente na particular (por quê será..?)

-Adoro AMIU. Se houvesse dilatação no seu colo, seria a melhor solução. Mas esse hospital não trabalha com AMIU...

...e meu colo estava fechadíssimo. Quem diria. Na primeira gravidez, a briga era para ele não abrir. E agora...


Fechado, sem nenhum sangramento. E os dias passavam. Nenhuma cólica, nenhum corrimento, nenhuma dor, nada. E assim foi até quase o término do prazo de quinze dias. Num fim de tarde de sábado, ao passar o papel higiênico, notei um corrimento gelatinoso, ligeiramente marrom. Pensei: "está próximo!". Mas as horas passaram sem que nada acontecesse.

No domingo, já tarde da noite e sem nenhuma mudança além do discretíssimo sangramento, resolvi ir ao hospital. Me sentia fisicamente bem, mas estava nervosa demais. Comecei a duvidar do quão preparada eu estava para... o que fosse.

Cheguei ao hospital e logo subi para a internação. Não quis ficar num quarto privativo, achei que nem era o caso.Até porque não queria que meu marido ficasse comigo. Na enfermaria só eram permitidas acompanhantes mulheres. Cheguei sozinha, e fui atendida por uma enfermeira simpática, que se apresentou e ofereceu empatia, pois também já havia passado por o que eu estava prestes a enfrentar. Ela me pôs no soro com Ocitocina (um hormônio que produz contrações) e o primeiro comprimido de (argh!) Cytotec.

As dores começaram. Primeiro, realmente uma cólica bem forte. Eu ainda conseguia fazer piadas. Na verdade, me incomodava mais a dor da agulha na mão (eu DETESTO acessos na mão..!) do que as cólicas. Foi nesse estágio que minha querida amiga chegou. Coitada, acho que se soubesse o que viria pela frente, eu mesma faria questão de que ela não tivesse presenciado aquilo. Mas que bom que ela estava lá..!

Rimos, fizemos piada com os programas da TV, comentamos a semelhança da enfermeira com a dançarina Andressa Soares (a Mulher Melancia!), contamos causos. A dor crescia e eu ri até onde consegui. Mas chegou o momento que eu não consegui mais. As lágrimas não vinham: vieram os gritos. E a minha "Mulher Melancia" aconselhava com calma e meiguice que respirasse fundo, fizesse força, dobrasse as pernas. "É como um parto, mas sem o prêmio..!". A doida da minha amiga (bota AMIGA nisso!) chegou a pedir para que eu a mordesse. Se eu o fizesse, não ia sobrar nem osso..!

Resumo da ópera: a dor é lancinante. Gritei, sim. Esperneei, pedi drogas, cesariana, aspirador de pó e até porrada. Nem sei quanto tempo passou. Nada saía, nem sangue. Fiz muita força. Levantava, sentava, pulava e até dançava. E aquele soro no braço..!

Mais força. Um pouco de sangue. Aquilo me tranquilizou, me deu mais coragem para "empurrar". Mesmo assim, já havia amanhecido e eu estava exausta. Vinha cambaleando do banheiro para a cama quando senti um "estalo" dentro de mim. Um líquido lavou o chão, e eu expeli algo que reconheci como o que uma colega de dor e de blog descreveu como um coágulo escuro em forma de rim . Por conta de seu testemunho, achei que já era o feto. Desviei o olhar. Pedi pra Renata chamar a enfermeira, a faxineira, sei lá. Me senti péssima e a dor não passava, parecia piorar. Tentei subir na cama e então veio uma nova contração, que quase me fez perder os sentidos. E, com ela, o feto.

Tentei desviar o olhar, mas foi irresistível. Por um segundo, tirei de minha mente o medo que aquela imagem pudesse assombrar-me o resto da vida. Não sei descrever o que senti ao fitá-lo, mas não foi algo ruim. Se havia alguma sensação negativa, foi eclipsada pelo alívio das dores que desapareceram por completo. As lágrimas finalmente rolaram e murmurei uma prece pessoal por tudo o que aquilo viera representar em minha vida. A Renata me auxiliou a subir na cama e, em segundos, adormeci. Pelo menos seis horas tinham se passado da internação áquele momento.

Acordei um tempo depois- não sei precisar quanto- com uma nova onda de cólica. Senti que algo se desprendia de mim. As dores agora eram esparsas, e sumiam logo após trazer uma enxurrada de sangue e coágulos grossos. Encharquei a cama e algumas fraldas de adulto. Fui levada á US onde o médico constatou que havia sim restos a serem retirados pela curetagem- embora muito pouco - e que eu estava sangrando muito. Ele ficou surpreso até de eu não estar pálida nem sentido vertigens. Saí do consultório caminhando. Um milagre de acordo com meu merecimento.
Da curetagem, nada lembro a não ser a entrada no centro cirúrgico. Dormi e nem lembro de ter sentido sono. Apenas acordei em outro lugar e fiz a pergunta clássica ao primeiro enfermeiro que apareceu: " Já acabou?". Pelo sorriso da resposta, já devia ter acabado fazia era tempo...

Tive alta no dia seguinte, já sem dores. Em cinco dias, o sangramento cessou quase que completamente. Hoje, seis dias depois, a reavaliação mostrou que está tudo bem. Já não tomo mais nenhum remédico, já não sinto mais cólicas. Apenas cumpro mais alguns dias de repouso, e daqui a três meses...quem sabe.

Ah, e um lembrete prático: minha primeira filha nasceu de cesárea. E já que esta dor da expulsão é a mesma do parto, posso dizer com a segurança das duas experiências: VIVA O PARTO NORMAL!!. Não se deixem intimidar pela dor. Ela passa muito mais rápido do que pensamos. Se meu bebê tivesse nascido, teria sido mil vezes melhor passar pela dor ANTES do parto do que enfrentar novamente o pós operatório da cesariana. Eu teria curtido muito mais os primeiros momentos da maternidade sem aquele rasgo na barriga. Não há cólica que pague isso, não... mais uma vez VIVA O PARTO NORMAL!!.


Cicatrizar útero e coração. Regenerar. Renovar. É assim que me sinto: renovada. Como bem disseram os três anjos que acompanhou a tudo de perto (e que aqui na Terra, chamo de amigas) : " A vida continua... na verdade ela nunca parou.Tudo muda, tudo vem. E vem para bem". "Estamos em processo de melhoria contínua" - disse uma outra.




A quem possa estar lendo essas longas linhas, minha gratidão. Seja qual for a história que você esteja escrevendo, meus votos de sucesso e felicidade. E áquelas que compartilham essa intensa experiência, minha empatia, solidariedade e amor. Confiança é a chave. Sempre.

Não, isso não é consolo. Mas ás vezes, pode ser um conforto.

Deus é misterioso e infalível. Sou grata pelas lágrimas que lavam traumas, transformando-os em lições aprendidas. Que o Senhor me faça digna de merecê-las, e jamais esquecer que sou antes de tudo, instrumento do Bem.

sábado, fevereiro 26, 2011

Quando a gente não anda...a vida EMPURRA.

O sonho começou e terminou em datas festivas. Da descoberta da gravidez- a segunda, desejada, esperada, confirmada, festejada! - a outra descoberta trágica: um coraçãozinho de 11 semanas que parou de bater em meu ventre, deixando partido o que há 30 anos em meu peito.

Não, não consegui tomar nenhuma atitude na hora que não fosse chorar, lamentar, buscar uma culpa que não havia onde encontrar. Acho que nenhuma mãe espera conhecer a dor de perder um filho, nenhuma gestante espera outro momento que não seja o parto. Tentar descrever aqueles sentimentos é doloroso e desgastante para quem passa por isso, e inútil para quem nunca passou. Só se aprende vivendo. Vivendo e aprendendo. E tudo é aprendizado. Rezei até encontrar o novelo que me conduziria ao fim do labirinto escuro do luto, onde encontrei a gratidão. Nunca eu me senti tão sozinha- e nunca me foi tão óbvio que tenho amigos verdadeiros. Nunca eu me senti tão desamparada - e nunca eu reconheci tanto o apoio recebido. Nunca eu me senti tão fraca e culpada - e nunca havia conhecido tão intensamente a força do perdão.Nunca eu senti tanta dor - e nem conhecera tamanho alívio.

Ao sair do hospital, não estava mais grávida nem carregava um bebê no colo. Mesmo assim, senti o pulsar da nova vida.

Fui eu que renasci.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Update: Balzaquiana

Então, tenho 30 anos. Trinta. Achei que isso ia me assustar, me deprimir (será?) me fazer sentir diferente. Que nada. É engraçado pensar que tenho trinta. Trinta. Trin-ta..! *risos*. Não dá nem pra acreditar, parece que estou falando de outra pessoa.
Cá estou eu, trintona, inegavelmente adulta e mesmo assim...

...Bem, vai ver que é por isso que o destino fez questão de tornar esse ano um divisor absoluto de águas em minha vida. E isso porque 2011 está apenas no início.

terça-feira, novembro 30, 2010

Xi...vazou!

Tô com medo desse WikiLeaks. Pra quem não conhece, é um site na Internet que divulga documentos militares confidenciais dos EUA e outros países (embora a grande sensação seja o furdunço que esse site faz na vida da diplomacia americana).

Dessa vez, telegramas diplomáticos despachados desde a década de 60, foram expostos no site, causando grande dor-de-cabeça para a Sra. Clinton, já não bastase o peso de uma Monica Lewinsky na testa.

De toda a onda, eis a parte que realmente me interessa "Para EUA, Brasil oculta prisão de terroristas, revela WikiLeaks" notícia publicada no Estadão.com.br

Olha os EUA querendo dar motivo pra invadir nossa praia!
Roubar nosso pré-sal (existe, afinal?), nossa Amazônia, nossa água doce, samba, feijoada...

O Lula era "o cara", e a Dilma, vai ser "a mina" ?

Mina de ouro, né...

Ouro,café, água doce, fauna, flora...Até as bundas no Brasil estão em extinção. Até nossas beldades sonham com carreira internacional. "Fulana é top, foi morar nos States. Casou com gringo..." Ah, sai de mim com esse complexo de Paraguaçu!

Compro um Gurgel a álcool e vou viver de banana, mas por mim, passe bem gringolândia, cuidem dos seus que eu cuido dos meus. Bora treinar direito esse exército e fazer uma campanha patriótica REALISTA, não aquela maluquice de Copa do Mundo...

A gente já tem super-herói, né? Duvido que ia rolar aquela operação toda no Rio se o moral das tropas não estivesse lá em cima. E, quem além do Capitão Nascimento pra botar a população aplaudindo e gritando "Caveira neles!" pelos blogsflogslogs da vida?

Foi só mostrar que o mocinho pode ser tão ousado quanto o bandido, sentar e chorar não tá com nada. Capitão Nascimento é o antônimo de Profeta Gentileza. Truculência gera truculência. Até a palavra é truculenta de se dizer!Pára o mundo que eu quero desceeeeeeeeeeeeeer..!!

É, John... a gente tá dizendo, mas ninguém tá ouvindo. :P

sábado, novembro 27, 2010

Caos e efeito

É incrível isso que está acontecendo no Rio. Quer dizer, eu é que não quero acreditar. O mais difícil é pensar que, no ponto em que chegamos, a ação massiva de coação ao poder paralelo deve ser considerada uma coisa boa. Uma espécie de "dia do juízo" para os demônios e anjos caídos do tráfico.

Acho que só posso imaginar como é ser um desses agentes, viver uma guerra dessas, só eles sabem pelo quê estão lutando, dispostos a arriscar a própria vida e a de tantos outros, culpados ou inocentes...Acho que só posso imaginar como é ser uma dessas pessoas de bem que descem o morro com filho no colo, mãe idosa, irmã grávida, gente que já trabalha muito e sofre demais, e agora não pode sequer ficar no próprio cantinho, desce pro asfalto sem ter pra onde ir, mas a gente se vira, o negócio é ficar vivo.

Penso naquele senhor meio desdentado, 80 anos, que mora no morro desde que era um subúrbio lindo, cheio de colinas e nascentes. Ele está otimista, mesmo tendo que dormir na rua com a filha, o neto e a companheira, acha que quando voltar para casa, o morro terá mudado para melhor. Sua filha nada responde, mas ela não concorda com o pai. Nasceu e pariu em meio a realidade violenta do tráfico. Ali não tem polícia, nem tanque que resolva. Ali, só Deus.

Não é de adimirar que o Brasil tenha elegido para herói o lendário Capitão Nascimento. As palmas no cinema são a mais legítima manifestação de que o povo está tão cansado da situação, que já justifica a violência.

É, Brasil, nem todos somos culpados. Mas todos pagamos caro, de um jeito, ou de outro...

"Abre a janela da favela...você vai ver a beleza que tem dentro dela..." Ponto de Equilíbrio

O documentário Meninas , sobre a dimensão do problema da gravidez na puberdade através da vida de meninas pobres e muito jovens -13,14,15 anos - moradoras do Morro dos Macacos, no Rio de Janeiro.

A delicadeza e originalidade da abordagem, respeitando o ponto de vista delas,um tanto romântico e infantilizado. A última cena traz um epílogo chocante, contrastando com o clima leve de todo o filme, tamanha a ternura com que a diretora tratou o assunto. Mesmo dentro de uma situação tão controversa quanto a dessas meninas-mães, ainda há momentos de grande beleza e emoção no filme.

Mas, não acreditem no que digo: assistam!

quarta-feira, novembro 24, 2010

Rosa McCartney e o Ninho de Mafagafos

São seis da manhã em São Paulo, a garoa se espalha no chão. Sabemos que a escolha da companhia aérea é uma decisão do cliente, mas ficar esperando bagagem dar a volta na esteira, ninguém merece.

Pisei em solo paulista ainda na pista - e por mais que rime, não seria verdadeiro expôr de outra forma. A mágica e misteriosa viagem através do Brasil foi concluída com êxito. Thank you leis da aerodinâmica!

Agora, a mágica misteriosa viagem através da cidade. São Paulo, minha São Paulo, my Saint Paul, Paul McCartney! Cada ônibus era um submarino amarelo e todos os cruzamentos se tornaram Abbey Road. Dá pra ir a pé da casa da minha mãe ao hotel onde Sir Paul se hospedou. "Alô,seu Beatle! Somos vizinhos!"

Chove chuva, chove sem parar...Upa! Sem Parar, aquele chocolate? Ah, se fosse assim, deixa chover..! Mas eu me sinto uma tremenda idiota enrolada nessa capa de chuva que mais parece um saco de lixo. E, quer saber? Tô toda molhada. Não adiantou piscirocas.

Não tem grana nem chuva que pague ir ao show de um Beatle com seus pais. Meus pais detestam futebol. São espiritualizados, mas não religiosos. Não freqüentam clubes, restaurantes nem trabalham em empresas afeitas á confraternizações. Negócio deles é (muito) poucos e (muito) bons shows. Meu irmão foi praticamente no colo para o primeiro show do Paul McCartney no Brasil. Eu voltei rouca e dolorida pra espalhar a novidade na escola.

Dessa vez não teve escola. Dormi até as 15h. Ainda bem que terminei o colégio em 1998.

Tudo bem in the rain, 64 mil pessoas no estádio e meu tio consegue ver lá da pista a minha lanterna diferente. Ser esquisito é legal quando se precisa de um destaque no meio de mais de 60 mil pessoas...

Showzaço. Somzaço. Pernadaço até achar um táxi livre. E preçaralho, claro. Por aquela quantia, dava pra alugar uma limusine numa segunda-feira qualquer.

Peraê, era segunda, mas não era qualquer.

Era a segunda apresentação do Paul!

Apresentação de primeira, inclusive. Babem, cariocas, mas o Paul ama os paulistas, que têm Paul até no nome..!

Essa doeu.

quinta-feira, setembro 02, 2010

Hipocrisia social

O que mais me deixa puta em ter "crescido" é entender o que significa TER de aceitar certas normas de conduta social. Pois é,nem precisei chegar aos 30 pra entender que rebeldia adolescente é puro luxo, acreditem meus caros amigos de 16 anos:o mundo lá fora é canibal e sua dieta básica é composta de autores de frases como "Eu nunca aceitaria uma coisa dessas!". Crescer é condescender com muita coisa, em nome de outras tantas, que nem passariam pela sua cabeça ocupada em sonhar com o bonitão da classe ou a carteira de motorista.

Por exemplo, este blog. Eu já fui uma blogueira de relativo sucesso, sabe? Isso quando eu não tava nem aí com o que os outros pensavam de mim. Muito menos em como iria afetar minha imagem respeitável de senhora casada e mãe, ou até minha carreira profissional. Hoje é isso: em nome da moral, dos bons costumes e de todas aquelas coisas que eu já contestei, tenho que aparar as arestas da minha personalidade quando uso meu nome em público. (curtiram o "quando uso meu nome..", né?;P)

Enfim, percebi que essa hipocrisia toda também tolheu minha criatividade. Quando leio esse blog,ás vezes tenho vergonha do que escrevo. Pô, cada post chato ue eu vou te contar! Aliás, já contei; é só ler pra crer.

Se eu fosse postar aqui tudo o que se passa pela minha cabeça, também, iam me tachar de maluca. Eu não posso mais me dar o luxo de receber hate mail. Imagina que chato? A gente não questiona nada quando alguém te odeia por ser o que é. Mas é muito chato ser censurada quando tentamos mostrar o melhor da gente.

É foda quando o melhor da gente é ser a gente mesma quando se é meio doido por dentro.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Relatório #23

De boa? Esse planeta é coisa de maluco. Cada dia mais eu acho engraçado viver aqui.

segunda-feira, agosto 23, 2010

Delírios a 37º C

Estou com febre, acho que tô gripada de novo. Esse inverno me derrubou: definitivamente, eu desacostumei do frio de Sampa. Eu não gosto muito de frio, a não ser que possa ficar em casa, só enrolada no cobertor, na frente da lareira, assistindo a um monte de filmes legais. É a única coisa que gosto de fazer no frio, então, acho que posso me contentar em fazer isso só de vez em quando, ao invés de deixar de fazer coisas tão importantes quanto, que é andar pela calça descalça, num vestido de uma peça só, e achar legal quando espirrar água na nossa roupa. Sei que o clima é um fator determinante para a vida das espécies, e que não cabe a nós gostar ou não disso, mas... me adapto mais facilmente a climas quentes. Sou uma espécie de humana fotossintética ou algo parecido. Vai ver que é por isso que meu cabelo fica verde ás vezes.

*Não, não precisa chamar o 192, não, eu não tô delirando, sou maluca assim mesmo.*

Só que aqui em SP já é um frio bissurdo (bissurdo= que faz doer e tampar os dois ouvidos). E ainda essa febre a me gelar por dentro. Ótimo. Se não baixar já-ja, vou ter de tomar um banho morno. E vocês podem prever que, a derradeira coisa que eu desejo agora, é um banho morno.

Ainda mais que o chuveiro não tem box nem cortina. Vai vendo.

Bom, estou com os sintomas clássicos: nariz entupido, dores no corpo, febre baixa e sem-vergonha. Calma, não é H1N1. Deve ser esses resfriados bestas de entrar e sair de dentro dos lugares aquecidos para o frio extremo do sereno de Sampa. A gravidade dessa gripe depende muito da agenda do gripado: se ele tinha um compromisso social importante, por exemplo. Ou algo inadiável. Aí é uma porcaria. Mas, se o trabalhador é do tipo folgado e conseguiu uma desculpa para pegar um atestado e ficar em casa coçando o pé: maravilha!! Não precisa nem fingir. A parte ruim é que você provavelmente vai estar podre demais para aproveitar a folga extra. Mas ficar em casa também pode revelar grandes prazeres...

...como a cadeira de balanço, a lareira, o cobertor... e o ócio.

Já sei porque dizem que o inferno é quente. No frio a gente se sente tão mal que não dá vontade nem de pecar. (essa eu posto no twitter, pra reafirmar minha teoria. Pode ver que os países escandinavos têm índice de criminalidade muito menor que nos países tropicais. Isso é porque o frio não dá vontade fazer NADA a não ser sentir calor!! Por quê acham que os finlandeses amam sauna? Porque é tão frio, mas tão frio lá fora, que inventaram um jeito de poderem ficar lá.. só curtindo o suor pingando...

Se não fosse na sauna, finlandês suaria? (essa é outra pérola tuitável)

Paulista é viciado em trabalho. Seja calor ou frio (e geralmente é frio..!), tá sempre trabalhando. Já que o clima é uma porcaria e não dá pra curtir uma praia, melhor trabalhar que nem um doido pra poder comprar uma casa de praia no Rio... porque lá o clima é show, só tem gente bronzeada e a praia é logo ali...

aí, maluco trabalha, trabalha, trabalha... sobre na vida e no andar do escritório, sobr pra cobertura dos prédios no alto do Campo Belo, sobre na encosta do morro onde ele comprou sua casa de praia- a qual nunca tem tempo de freqüentar, porque está sempre trabalhando.
Aí chega o carioca... o carioca mora num barraco sem-vergonha no morro, mas acorda todo dia com a vista mais linda que o melhor 5 estrelas da cidade. Praia, marzão, tudo isso de graça, é sol e calor na maior parte do ano, gastar com roupa de frio pra quê? Dá pra fazer bico, vender sanduíche, bugiganga.. ou roubar aqueles gringos idiotas que vivem dando bobeira no calçadão. Ou não, menino até sonha em ser médico, advogado... mas pra fazer faculdade precisa de dinheiro, e dinheiro o tráfico dá. Não deixa de ser uma espécie de primeira opção. Bom, não estou aqui pra julgar nem promover uma discussão ética e filosófica sobre a criminalidade, o fato é esse: Se você não consegue se dar bem "no asfalto" porque falta diploma, currículo, documentação, etc... Não interessa: o tráfico é emprego fácil e garantido. E alguns ainda vêem vantagem em obter maior acesso ás drogas. É muito fácil sustentar um vício assim. Alguns são conscientes de que trabalham por e pela droga.Acho que esse é o tipo mais triste de se conhecer.

Ou seja, revisitando a eterna questão " se-o-Rio-é-mais-violento-que-SP", proponho a seguinte teoria: não é uma questão de violência, talvez seja uma questão de.. tráfico. *risos*. Lá tem mais traficante, mais drogas...

Ah, deixa eu parar com isso.. ninguém vai entender e os cariocas vão ficar chateados...Com razão, eu fico pê da vida quando um carioca fala qualquer coisa sobre SP que não seja boa...mas poxa, aceitemos a realidade: não dá pra comparar as duas metrópoles de forma tão generalizada. São duas realidades diferentes, óbvio que isso criaria dois tipos de pessoas...praticamente :)

quarta-feira, agosto 04, 2010

Banheiro virtual

Quer saber? Blog é legal. Dá pra escrever qualquer coisa. É como a latrina do pensamento: eu venho aqui, despejo toda a m... que tenho na cabeça e clico em "publicar postagem" . É como se fosse a descarga.

Ensaio sobre a viseira

Ok, cá estou eu novamente: felino no colo e nenhuma idéia na cabeça, a escrever pro vazio.
Mas tá tão frio que o negócio é ir mesmo postando e escrevendo qualquer coisa só pra esquentar os dedos.

Estava assistindo "Ensaio Sobre a Cegueira", o filme baseado no maravilhoso livro do Saramago. Aprecio o livro e o filme de formas diferentes. Acho que o filme é uma obra-prima do audiovisual por seus cenários, elenco, fotografia, figurino, atuação, trilha sonora, e por todos os motivos que levam alguém familiarizado com o meio a reconhecer quando uma produção é estruturalmente boa.

O livro é irretocável, e apesar do roteiro do filme ser excelente, não há comparação com a obra original, muito mais intensa e profunda na abordagem do tema. Não é como no filme, em que ainda é possível tentar desviar os olhos das cenas de extrema violência. Nas palavras de Saramago a descrição de todo aquele horror nos torna muito mais do que espectadores. É como se as palavras obrigassem nossa mente não apenas a ilustrar a situação, mas vivenciá-la. É doloroso, e por isso mesmo, genial.

Mas ao final o que fica é uma sensação ruim, pesada, que ao invés de se lavar na chuva redentora, perdura com o desfecho pressuposto da heroína do momento, angustiada pela cegueira após tanto tempo sem fechar os olhos para tudo o que ninguém deveria ver.

É dessa sensação e desse peso que estou tentando me livrar agora, perseguindo a criatividade e pensando em marmotas nos seus buracos. Está um frio picoléico e eu estou com umas 80 blusas, mesmo assim nada me anima a tirar a mão esquerda do bolso. E, se você está estranhando essa afirmação ou é novo aqui ou não me conhece- todo mundo já sabe que eu digito com uma mão só, mas isso é mais motivo de chacota do que habilidade. Anyway, em dias frios como hoje eu saio na vantagem: cinco dedos congelados a menos.

É... relendo esse blog dá pra entender a parca visitação.

quarta-feira, julho 28, 2010

Rascunho

Um passo, uma palavra. O negócio é sair escrevendo. Escrever é caminhar pelo verbo, ir em frente e sempre chegar em algum lugart interesante. Ou não. Passeando por meus jardins de palavras só para olhar as letras florescendo. Gosto disso. Dá uma sensação de paz.
Sempre penso em atualizar isso aqui, mas quanto mais busco um assunto, mais me foge a inspiração. Escrevo como quem anda de bicicleta: uma vez no ritimo, se parar, posso cair. O começo é sempre morro acima, mas na ladeira, solto os pedair para sentir o vento no rosto, a velocidade, o fluxo. Nessas horas, escrever é como voar.
Este é meu ninho, minha flor, meu blog.

segunda-feira, julho 26, 2010

CAMPANHA: DOE UM SORRISO PARA " ALINE" !!







Esta é Aline Fernandes (nome fictício). Uma jovem que, por causa de sua aparência, vive reclusa e recentemente apresentou traços de depressão. A recomendação de especialistas é ar fresco e injeçôes de autoestima regulares, mas seu quadro é tão grave que ela se recusa a sair e desenvolveu rejeiçâo ás injeçôes, o que têm agravado seu problema.
Graças á açôes entre amigos no Twitter e outras redes sociais, já conseguimos arrecadar o bastante para custear a série de cirurgias plásticas, incluindo o transplante de rosto, para esta pobre criatura. Mas venho através dessa campanha, pedir a colaboração de vocês no tratamento a base de SEMANCOL, um poderoso e raro medicamento que, acreditamos ser a única soluçâo para esse caso tão grave.

Sua melhor contribuição é o apoio, o carinho e a solidariedade a Aline. Por favor,enviem suas mensagens positivas para pikenice@gmail.com ou no twitter com a tag #sorriaaline

Doe um sorriso agora mesmo!

quinta-feira, julho 15, 2010

Bem-feito!!

Eu acho o fiofó usar o blog para publicar inimportâncias pessoais e depois reclamar da falta de adeptos. Mas é isso aí, c'est ma vie, e não há nada que eu possa fazer. Sou dona-de-casa, não arqueóloga investigativa.

sexta-feira, julho 09, 2010

VIVA OS BATALHÕES PAULISTAS DO EXÉRCITO CONSTITUCIONALISTA!

Nove de Julho é a luz da Pátria
Data imortal deste berço augusto
Os bandeirantes denodados
Deste São Paulo vanguardeiro e justo

Nove de Julho é a glória do Brasil
Cantado por São Paulo
Sob um lindo céu de anil

Nove de Julho é a luz da Pátria
Data imortal deste berço augusto
Os bandeirantes denodados
Deste São Paulo vanguardeiro e justo

Nove de Julho heróica é bela data
Marco inicial da jornada democrata
Piratininga terra do trabalho
Onde são reis, a enxada e o malho

Seu povo altivo vai espalhando
Amor pela Pátria e vai cantando
Solo querido, terra amorosa
Pátria de bravos, sempre formosa

quinta-feira, julho 08, 2010


A chama do amor cegou meus olhos
Só vejo teu rosto em cada esquina
Tua ausência é como a fome
Seguir tua luz, teu rumo,é minha sina,
Noites perdidas vagando ao luar
Sonhos guardados no fundo do peito
Por quantas vidas irei te buscar?
Estrela do tempo me ensina a esperar
Diz quem resiste a essa paixão
Quente ,indomável,força da vida
Cruzam o espaço,planetas e sois
Vontade e destino, dos deuses e nós!

quarta-feira, julho 07, 2010

SAVANA AOS 18 (2010)

...a maioria dos meninos à minha volta não valia tanto a pena assim.O único que ainda me deixava curiosa pra provar desse fruto era o loirinho da P3.Ah! Com ele eu sou capaz até de sonhar algo bem sujo, bem inconfessável, aquela coisa bem "noir", do cara que chega todo cheio de pose no bar e olha aquela garota com jeito de ordinária, encostada numa mesa de sinuca. Ele olha para ela com um jeito bem sexy e vem se aproximando, fixo no decote dela, que o encara cheia de desejo, e ele pergunta com aquela voz máscula...
-Tem fogo?
-Tenho... só não tenho cigarro!

Seria a desculpa para um beijo agarrado, e a história poderia partir daí para uma censura 18 anos, mas ali, na vida real da escadaria do cursinho, eu estava estática, embasbacada, totalmente imobilizada, mutificada, mumificada, zumbizenta e querendo MORRER de vergonha. Não sabia o que era mais inacreditável: o fato dele ter vindo falar comigo, ou aquela resposta altamente TOSCA que eu havia dado.
- Tá na mão!- ele puxou uma caixinha e me ofereceu cigaros. "Eu..." -comecei a falar, mas desisti. "Eu não fumo", afinal de contas, não era a mesma coisa que "Eu nunca fumei". Eu não perderia essa oportunidade, precisava oferecer esse sacrifício do meu pulmão a alguma coisa que valesse a pena. Conhecer o maior gatinho da Av. Paulista!

Colocamos os cigarros na boca, eu ainda não conseguia parar de sorir.
-Sim, e o fogo?
-Ah, é!

Comecei a revirar a mochila, procurando um "isqueiro". Óbviamente, não encontraria nada- não TINHA nada ali. Comecei a esboçar uma cara de injuriada "mas eu tinha CERTEZA de que estava aqui..!". Enquanto isso, passou um moço fumando, ele pediu o fogo, acendeu. Interrompeu minha "expedição" dentro da enorme mochila e pediu meu cigarro, para acender. Acendeu e me devolveu.
-Obrigada.
-De nada.

Mas ao invés dele virar as costas e ir embora, como a maioria dos alunos já havia ido, ele ficou ali, parado na minha frente. Primeiro eu tive a impressão de que ele estava me desafiando a dar a primeira tragada, como se soubesse que eu nunca havia fumado. Depois vi que ele estava apenas sendo agradável, puxando conversa.

-Fez o simuladão?
-Fiz, mas não peguei meu resultado ainda.
-Nem eu. É só um simulado.
-Mas os melhores lugares ganham prêmios.
-Não acho que estou em lugar de ser premiada.
-Nem eu.
- Vai prestar vestibular para quê?
-Ainda não tenho certeza.
-Nem eu. Olha quanta coisa temos em comum.
-A incerteza é uma coisa estranha de se compartilhar...
-Olhaí, já mostrou talento pra Filosofia.
-Todo maluco acha que é filósofo...

Ficamos ali conversando um tempão e fumando (a certo ponto eu pedi liçenca para ir ao banheiro e comprei um isqueiro, que "achei" na minha bolsa). Descobri muito mais que apenas seu sonhado nome.Quando o sol começou a baixar, é que nos despedimos. Ele me deu três cigarros "pra fumar enquanto esperava o ônibus". Assim que nos perdemos de vista, tirei da bolsa um tubinho de Vitamina C, coloquei a última pastilha no bolso, enfiei os cigarros e o isqueiro no tubinho e meti no outro bolso da calça largona de moletom branco.Coloquei os fones de ouvido, aumentei o volume, e os ruídos da cidade desapareceram sob o meu sonho. O ônibus virou carruagem e levou a princesa de volta a seu castelo, onde foi perdendo não apenas o sapatinho, mas as meias, a blusa, a camiseta, e toda a roupa no caminho até a ducha...
-Minina, não deixa tudo jogado desse jeito! - ralhou Maria, funcionária da casa desde que Savana era bebê.
-Ah, Mariazinha, hoje eu posso, que sou princesa. Acabei de encontrar meu Príncipe Encantado..!
-Ôxi! E ele já sabe disso?
-Tem coisas, Maria, que as pessoas não precisam saber...


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- Caraca, o cigarro!
Freei o carro na mesma hora. A Paola quase veio beijar o pára-brisa dianteiro.
-Tem cigarro aqui, sua noiada! - Brunette riu.
-Não, pô, eu esqueci meu cigarro no bolso da calça!E minha mãe vai separar a roupa suja antes de dormir, e vai achar!!- meu desespero se justificava por estar vendo perfeitamente a cena: minha mãe tateando os bolsos da calça, encontrando aquele tubinho de Vitamina C, abrindo para ver se estava vazio e -surpresa!- cai três cigarros e um isqueiro. Panorâmica e sobe, fechando no rosto dela. Vai, vai, no olhar. No olho. Na gota de suor escorrendo pelo canto do olho. E a voz furiosa em off:SAVANAAAAAAAAAAAAAA..!
-Tua mãe não sabe que você fuma?
-Paola, nem EU sei que fumo, esqueceu??
-Tá,tá,tá...Sem desesperoooo...Savana, quer voltar?
-Cê tá maluca que eu vou entrar em casa cheirando à maconha, e com o maior bafo de cachaça!
-Mas você não tava fumando!- testemunha Paola
-Nem bebendo! - emenda Paloma
-Há, há, há...ai, e agora, como eu saio dessa...- comecei a pensar mil coisas ao mesmo tempo, enquanto as meninas matraqueavam entre colheradas daquela gelatina envenenada. Eu sabia que aquilo não iria acabar bem, mas ia falar o quê?
De volta ao meu problema, peguei o celular e liguei para minha mãe.

-Oi, mãe. Faz um favor pra mim? Eu tô voltando pra pegar o meu cartão do banco, que esqueci na gaveta da escrivaninha lá atrás, você pode pegar ele pra mim e me entregar aqui no portão? Tô aqui na avenida, já. Valeu, mãe, te amo!

-O quê você tá fazendo, Ana?

Dei meia-volta no carro e desci a rua na contramão, à toda. Repassei o plano na minha cabeça: se quando me atendeu mamãe estava na sala (e deveria estar, porque era hora da novela), ela precisou esperar o próximo comercial, atravessar a casa, o quintal (o que era quase sempre um pouco demorado por causa dos quatro cães-fila de estimação), subir no meu apartamento, destrancar a porta, atravessar o quarto e fuçar na escrivaninha. Levaria uns 5 minutos. Eu precisava chegar lá em três. Mas acho que dava para fazer em 2 e meio.

-Savana, sua MALUCA, você vai matar a gente!
-Se eu não fizer isso, minha mãe vai ME matar!

Reduzi um absurdo para entrar no condomínio. Acho que demorei mais do portão do condomínio até em casa do que no caminho todo de volta. Mas eu não podia chamar a atenção. Já tinha sido ousadia demais essa escapadela.

-Fiquem quietas, pelamorrr! - saí do carro e entrei correndo pela lateral da casa, que ia direto á área de serviço. Minha mãe ainda estava indo buscar meu cartão. Nos encontramos quase na porta da lavanderia, mas por sorte, em lados opostos da piscina.

- Savana! Veio buscar..?
- Pode ir ver lá pra mim, mamãe? Eu vou olhar se não esqueci no bolso da minha roupa suja.
-Então vai lá no seu quarto que eu olho na lavanderia e aproveito para separar a roupa...
-NÃO! - é que...é que aí se estiver aqui eu não preciso subiiiir até lá, né... É que a gente tá atrasada, quer dizer, EU tô... -fui dizendo isso e correndo pra lavanderia. Minha mãe foi subindo para o quarto. Ela tá acostumada com isso: minha família inteira, quando está com pressa, não fala coisa com coisa...
Mexi em dois cestos da minha altura, cheios de roupa suja, para me tocar de que mamãe separa as roupas brancas numa outra bacia. Achei. Enfiei a mão no bolso, resgatei minha "vitamina C" e saí vazando:
-Achei, mãe! Tchau, já vou!
-Vai com Deus, minha filha! - ela berrou lá do apartamento.Com certeza não tinha nem chegado até a escrivaninha, ainda.

Voltei para o carro, que agora parecia um café holandês. O pote com a gelatina estava vazio, e aquelas quatro idiotas ainda queriam ficar MAIS doidonas?

-Ei, a noite tá só começando, turma.
-Pois éééééééé..! -repetiram as gêmeas, com uma preocupante e equivocada empolgação.

**********

Acordei com tanta dor-de-cabeça que nem conseguia abrir os olhos. A boca estava ressecada e com gosto de pneu de caminhão.Parabéns, Savana, essa é a sua primeira ressaca!- eu cuidaria para que fosse a última. As últimas 24 horas estavam parecendo rumspringa. Aquele ritual amish onde os adolescentes experimentam a vida longe de sua cultura rígida.
A voz forte do meu pai ressoava por toda a casa e fazia vibrar meu cérebro alcoolizado. Mesmo ali do apartamento dava para ouvir claramente aquele seu tom de descontentamento. Por causa do seu tom de voz, meu pai não falava: trovejava. Não gritava: rugia. Me assustei. "Pronto, agora eles descobriram tudo, e estão discutindo para qual colégio interno ou país muçulmano vão me mandar pro intercâmbio!"- pensei.
Vesti o roupão por cima da camisola e fui atravessando o quintal cautelosamente, tentando compreender melhor sobre o quê esbravejava meu pai

-Mas como, meu bem, você esqueceu de olhar os bolsos da roupa suja, e a Dona Maria não olhou também?
-Não, amor, eu sempre olho, mas ontem a Savana passou aqui e eu me atrapalhei...
-Era minha melhor camisa de reunião, eu queria usá-la hoje..!O quê são essas manchas laranjas?
-Não sei, amor, só tinha peças brancas na máquina, com certeza ela deve estar com algum defeito..!

Defeito eu não sei. Mas se era gripe, passou...

terça-feira, julho 06, 2010

Júlia em: KUNG-FU PANDA : Mestre Oogway


Ela tem três anos e adora Filosofia...e cereais!Eis um dos motivos pelo qual é delicioso assistir desenhos com minha filha para poder "debatê-los" depois!


Júlia entra na cozinha e começa a fazer perguntas sobre o Mestre Oogway, a tartaruga centenária e sábia de “Kung Fu Panda”. Depois de passar meia hora enrolada em tentativas de explicar por quê o Mestre Oogway “subiu”(ao céu), Júlia tenta escapulir da cozinha levando o cabo da minha vassoura.
-Devolve isso aqui, você não é o Mestre Oogway!- tratei de resgatar o que a Julia quis fazer de bengala.
-Mãe, por quê o Mestre Oogway usa isso?
-Pra se apoiar, filha. Para auxiliar a ficar de pé.
-Por quê ele não consegue ficar de pé?
-Porque ele é muito velhinho.
-Por quê ele é muito velhinho?
-Porque ele já está há muito tempo na Terra.
-Por quê?
-Porque chegou antes de nós.
-Por quê?
-Não sei, mas deve ter um motivo.
-O destino?
(quase engasgando)
-É, talvez.
-O destino dele é derrotar o Tai-Lung.
-Esse é o destino do Panda. O do Oogway era treinar o ShiFu, pra ele aceitar treinar o Panda.
-Não era o destino da Tigresa?
-Não. Por isso inclusive, que ela e os outros foram lá enfrentar o Tai Lung e apanharam, se machucaram...
-O ShiFu falou pra eles não irem, né?
-É, mas eles desobedeceram.
-Mãe?
-Sim, Juju?
- A Cely tem um boneco do Mestre ShiFu, compra um pra mim também?
-Quem sabe, Julinha, quem sabe..!



Não adianta apenas oferecermos filmes inteligentes às nossas crianças, é preciso saber é como estas mensagens são compreendidas. Para ter acesso aos nossos filhos não adianta só conhecer o mundo onde eles vivem, precisamos nos esforçar para conhecê-lo e identificar como eles o conhecem.
E isso é simplesmente mágico..!